Aguardando na linha: Pagamentos via celular na America Latina

Sep 22nd 2014 | Americas

Pagamentos via celular estão fazendo grandes avanços em todo o mundo. A Gartner prevê que 245,2 milhões de pessoas farão um pagamento via celular em 2013 (um aumento de quase 25% em relação ao ano anterior), quando o valor global de pagamentos via celular atingirá US$235,4 bilhões (um aumento de 44% em relação ao ano anterior).

Dinheiro ainda é muito usado na América Latina, mas em áreas remotas o recebimento em dinheiro ainda é caro e perigoso. A região tem mais telefones celulares do que televisões ou até mesmo que pessoas, mas 60% da população continua fora do sistema bancário. A falta de segurança torna as empresas ansiosas por reduzir custos e riscos associados a recebimentos em dinheiro. Condições similares deram início ao crescimento espetacular de pagamentos via celular em outros mercados emergentes, como o Quênia.

Entretanto, com as notáveis exceções de Paraguai, Colômbia e Haiti, onde tem havido algum progresso, isso não ocorreu na América Latina. Tesoureiros que estavam esperando que pagamentos via celular fossem a solução para os problemas de manuseio de dinheiro estão desapontados.

Juan Pablo Mojica, tesoureiro da Nestlé América Latina é um deles. “Temos operações em 22 países, incluindo as ilhas do Caribe. O problema é grande”, declara Mojica. Muitos dos clientes da Nestlé são pequenos lojistas de áreas isoladas, que pagam a empresa em dinheiro.

Telefones celulares poderiam permitir transferências de dinheiro fáceis, seguras e baratas. Alguns esquemas não exigem nem sequer a existência de contas bancárias. Assim sendo, por que o dinheiro eletrônico ainda não substituiu os recebimentos em dinheiro na América Latina?

A região é rica em diversidade. A infraestrutura bancária existente, os incentivos e a falta de regulamentação são alguns dos fatores comuns que têm atrasado a aceitação de pagamentos via celular.

 

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Que tipos de pagamento via celular?

Em primeiro lugar remessas de dinheiro, e não pagamentos via celular, são o principal produto e o de maior sucesso entre os oferecidos no Leste da África, no Paraguai, no Haiti e em todos os países onde houve adoção de dinheiro celular.  “Em alguns países africanos a única tecnologia disponível era telefonia celular e se tornou o meio de fazer pagamentos”, declara Mojica. “Na América Latina existe uma infraestrutura bancária.”

Na verdade, a infraestrutura para remessas e para outros serviços financeiros está mais desenvolvida na América Latina do que em algumas partes da África.

Além disso, em alguns países a rede cada vez maior de correspondentes bancarios (onde bancos usam instalações de varejo, como supermercados ou farmácias para receber pagamentos, entre outras transações) oferece altos níveis de acesso financeiro, embora isso não se traduza necessariamente em inclusão financeira. Isso pode inibir o crescimento de pagamentos via celular.

No relatório Mobile Money in Latin America (Dinheiro Celular na América Latina), Camilo Tellez e M. Yasmina McCarty informam que clientes que recebem remessas podem ter uma carteira celular. Porém, se a transação é feita através de um agente os clientes tendem a sacar o total dos valores recebidos. Os clientes não têm qualquer incentivo para guardar o dinheiro em seus celulares, “o que dificulta a introdução de carteiras eletrônicas baseadas em transferências de dinheiro ou em pagamentos”.

Educar os clientes para que façam outros tipos de transações via celular é um modo de resolver o problema. Uma pesquisa da Mobile Money for the Unbanked (MMU) concluiu que a maioria das soluções para carteira celular é oferecida por operadoras de redes celulares e não por bancos.

Por que as operadoras não assumiram a liderança na América Latina?

O setor bancário da região tem pressionado o governo com sucesso para impedir que as operadoras ofereçam serviços financeiros via celular. Os governos têm se recusado a conceder às operadoras celulares um monopólio nesse mercado, forçando-as a fazer alianças com bancos.

Normalmente os bancos cobram por serviços e têm sido lentos em incentivar pagamentos de baixo custo via celular. Por exemplo, os bancos do México cobram dos clientes tanto para sacar dinheiro de caixas eletrônicos como quando os clientes usam um caixa eletrônico de um concorrente.

Os pagamentos via celular só serão baratos se houver massa crítica e isso ainda não foi conseguido. Para isso, alguns provedores estão fazendo aliança com governos e com outras agências que fazem pagamentos regulares para um grande número de pessoas (como benefícios sociais).

O grande número de tecnologias e de modelos de negócio concorrentes prejudica o desenvolvimento. O mercado ainda precisa ser consolidado. “No futuro restarão apenas dois ou três modelos. Os modelos de sucesso terão que “conversar” uns com os outros para atingir a escala necessária”, declara Sergio Ramos, Diretor Comercial da Transfer Manamex (uma joint venture entre Citibank e America Móvil).

Quando os clientes começarem a usar seus celulares como verdadeiras carteiras eletrônicas para fazer pagamentos em lojas, os lojistas passarão a ter dinheiro eletrônico disponível para pagar seus fornecedores.

“Se as pessoas começarem a comprar as nossas tortillas com telefones celulares, poderemos receber dinheiro eletrônico dos lojistas”, declara Fernando Rosales, Tesoureiro Corporativo da Gruma, uma empresa globalizada de comida mexicana.

Confiança do consumidor e incentivos

Com frequência as pessoas fora do sistema bancário preferem continuar assim. Para haver adoção em massa é necessária uma mudança cultural. Conquistar a confiança do consumidor é um grande desafio, tanto do ponto de vista da segurança quanto da facilidade de abertura de contas. Alguns agentes simplificaram o processo, removendo agências bancárias como um possível empecilho. Contas podem ser abertas em lojas de conveniência ou simplesmente transmitindo uma mensagem de texto ou dados.

Incentivos também são importantes – e não somente de bancos e operadoras. As próprias empresas poderão ter que usar incentivos para promover o uso de dinheiro eletrônico. “Recebemos 60% em dinheiro. Oferecemos descontos para clientes que pagam com dinheiro eletrônico. Além disso, pedimos que os bancos façam a sua parte oferecendo sorteio de prêmios”, declara Rosales.

Algumas soluções via celular nem mesmo exigem contas. Carteiras eletrônicas podem ser vinculadas a uma conta de celular e os fundos/créditos de todos os usuários são totalizados em uma conta comum sob a custódia de um banco. Nesse caso, o banco fica encarregado também de processar as transações individuais.

Entretanto, não dispor de um cliente identificável associado a uma conta poderá abrir uma porta para fraudes. A regra “conheça o seu cliente” (know your customer - KYC) é fundamental para mitigar esse risco. As operadoras alegam que conhecem o cliente e a conta associada a um chip SIM significa que as operadoras já possuem as informações básicas sobre o cliente.

Atualização da estrutura regulatória

Regulamentação é a chave para o sucesso. A abertura de contas bancárias com requisitos mínimos de informações, ou diretamente com operadoras de telefonia celular, só funciona em países onde a regulamentação foi atualizada para permitir isso ou onde não havia qualquer regulamentação. Esse foi o caso tanto do Quênia quanto do Paraguai, onde a legislação seguiu os acontecimentos.

A lei e as práticas locais são muito diferentes entre os países da África. “Nos países que adotam o direito consuetudinário, como o Quênia, geralmente a ausência de leis é um campo mais fértil para a criação de pagamentos via celular.  Nos países que adotam o direito civil, que predominam na América Latina, os interessados podem sentir que o que não está expressamente regulamentado não é permitido", declara Camilo Telles, Gerente de Inovação de Tecnologia e Modelos de Negócio do Grupo Consultivo de Assistência aos Pobres (Consultative Group to Assist the Poor - CGAP), do Banco Mundial. As empresas têm medo de lançar serviços de pagamento via celular e, em seguida, serem obrigadas a cancelar o serviço. “Isso aconteceu com a Tigo (uma empresa de serviços via celular que disseminou com sucesso o uso de dinheiro celular no Paraguai), quando lançou seus serviços na Bolívia.

Atualmente os governos estão proporcionando maior clareza jurídica e o setor privado está começando a se movimentar. México, Peru e Colômbia estão nessa situação. Por outro lado, na Argentina há muitas restrições e os custos de aquisição de clientes são proibitivos.

Aldo Mendes, Diretor de política monetária, informa que o país pretende criar as bases para promoção de pagamentos e utilização de contas virtuais, uma vez que “há mais telefones celulares do que pessoas. A ideia é promover a inclusão financeira por outros meios que não os meios tradicionais e agências bancárias. A rede celular cobre todo o país.” A legislação para isso está em andamento.

O Chile também está trabalhando no sentido de um ambiente regulatório mais favorável. “Aqui a regulamentação tem sido o principal obstáculo”, declara Rodrigo Solis, Gerente de País da Kuapay, um provedor de aplicações para pagamentos via celular. “Uma operadora não é autorizada a prestar serviços financeiros sem uma Carta Patente.”

Isso está prestes a mudar. A legislação sobre cartões pré-pagos está sendo atualizada para que os usuários possam fazer pagamentos e outras transações a partir de seus telefones celulares.

Incentivos perversos

Por último, dinheiro físico é um grande concorrente do dinheiro celular, principalmente quando existem impostos sobre operações financeiras, uma vez que esses impostos incentivam perversamente o uso continuado de dinheiro físico. A Colômbia é um exemplo disso. Embora esteja sendo gradualmente eliminado, há um imposto sobre operações financeiras cobrado sobre qualquer movimentação de contas bancárias. “Pagamentos em dinheiro são um bom negócio para nós”, informa um tesoureiro. “Recebemos um milhão de dólares em dinheiro todos os dias. Com isso eu pago os meus fornecedores sem pagar o imposto.”

Mesmo assim, a Colômbia é um dos países mais ativos na promoção da inclusão financeira através do uso de dinheiro celular, tendo modificado outras regulamentações e criado instituições financeiras específicas para esse fim.

Em toda a região, quando o mercado consolidar e quando forem implementados a regulamentação e os incentivos corretos, além do convencimento dos clientes, o futuro poderá ser cor de rosa para pagamentos via celular. Os governos conhecem os benefícios que a telefonia celular pode trazer, caso a inclusão financeira seja uma prioridade e estejam trabalhando para adaptar suas estruturas regulatórias. Os bancos estão cientes da concorrência que as operadoras de telecomunicações poderão fazer nos setores não incluídos no sistema bancário e agora, finalmente, estão desenvolvendo soluções para o segmento. As empresas de cartões de crédito e de software também estão trabalhando em vários projetos, em toda a região. Observe esse espaço.


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Tesoureiros também estão recebendo propostas de soluções móveis para permitir que façam e autorizem pagamentos a partir de seus celulares. Porém, muitos ainda estão cautelosos e a segurança é uma das principais preocupações.

“Não me sinto confortável executando operações em um celular, principalmente porque considero que ainda estamos em uma fase de desenvolvimento e não gostaria de ter problemas de segurança ou de sistema. Isso envolveria uma grande mudança nos procedimentos da nossa empresa, mas vejo muito valor nisso, porque estamos no processo de centralizar a nossa administração de caixa”, informa Victor Zegarra, Tesoureiro da Andrade Gutierrez, um grupo brasileiro de infraestrutura. “Os signatários de contas bancárias viajam com frequência e seria ótimo poder autorizar operações com segurança e eficiência a partir de um telefone, em qualquer lugar do mundo. No nosso caso, precisamos de duas assinaturas para autorizar qualquer operação bancária. Isso fornece mais segurança para o processo, mas precisamos ter sempre duas pessoas disponíveis.”

Mariano Tannenbaum, Tesoureiro da Arcos Dorados, na Argentina, acrescenta: “Eu usaria, se a segurança for comprovada e depois de validar com o nosso departamento de auditoria.”

Um tesoureiro de uma das maiores empresas do Chile informa que estaria pronto para aprovar pagamentos por meio do seu smartphone, “Mas somente acessando o SAP e, a partir do SAP, gerando a instrução de pagamento via conexão de host para host. Eu não usaria o telefone para fazer o pagamento no portal do banco. Quando faço um pagamento, quero ter certeza de validar a cadeia de custódia, a contabilidade e outros processos.”

 

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